O Intercâmbio como linguagem
Por: 
Gustavo Bones
Postado em: 
Outubro 19, 2011

desde o princípio do espanca! realizamos diversos projetos de intercâmbio e trocas artísticas. acredito que abrir-se para a possibilidade de transformação, de questionamento a partir da visão do outro, são metodologias que utilizamos em nossas criações, nas produções de nossos projetos e no funcionamento cotidiano do grupo - assim como a maioria dos coletivos teatrais do país, acredito eu. na onda do teatro investigativo brasileiro, percebo também um grande interesse nosso em trocar com outros grupos: já realizamos duas edições do acto! – encontro de teatro; nosso último espetáculo é uma co-criação com o grupo XIX de teatro, de são paulo; e há pouco tempo fizemos um projeto de troca com a companhia brasileira de teatro, de curitiba.

 

 

o acto! – encontro de teatro é um projeto idealizado pelo espanca! com o objetivo de criar um espaço íntimo de convivência e trocas de experiências entre grupos amigos. em 2007 e 2010, trouxemos o grupo XIX e a cia. brasileira para bh para apresentar espetáculos, ministrar oficinas, realizar debates e participar de encontros, numa ação concreta para aproximar os três coletivos, além de ampliar as trocas destes com a nossa cidade. pouco depois da 1ª edição do acto, começamos a conversar com o XIX sobre a possibilidade de criarmos algo juntos. barco de gelo foi um exercício cênico criado coletivamente por dois coletivos, após uma residência de três meses do espanca! em são paulo. foi tão bom, tão modificador para todos, que logo depois dessa curta experiência, seguimos conversando para que o barquinho amadurecesse. até que passamos o 1º semestre de 2010 na casa do XIX, criando marcha para zenturo. o espetáculo é uma criação compartilhada, produção dividida, convivência diária, fruto da ousadia de duas companhias jovens, que perceberam que a troca entre os grupos era uma necessidade urgente para se reinventarem. fazer a marcha foi um encontro prático, econômico, afetivo, criativo, cheio de dilemas, de perguntas instigantes, de reconsiderações sobre o teatro, sobre o teatro em grupo, sobre o teatro do meu grupo, sobre diferenças e semelhanças, reconhecimentos e estranhamentos, dentro e fora do espanca!. além do quê, mudar provisoriamente de cidade, que projeto ambicioso para um grupo de teatro no brasil. nesse mesmo ano, o acto2! terminou com apresentações da marcha para zenturo (trazendo o resultado dessa experiência para a nossa casa); e com o primeiro encontro do projeto troca de pacotes – um outro si mesmo, que fizemos com a cia. brasileira de teatro. este projeto foi contemplado pelo programa rumos itaú cultural teatro, que promoveu intercâmbios entre companhias de todo o país. durante seis meses, nós e os paranaenses trocamos correspondências com materiais criativos diversos, fizemos alguns encontros presenciais e ao fim, agosto de 2011, apresentamos a pesquisa na semana rumos teatro,em que 24 grupos (cerca de 200 artistas) de 12 estados do país se reuniram para apresentarem seus intercâmbios. participar dessa mostra foi muito gostoso: além de encontrar conhecidos, fizemos novos grupos amigos, reconhecemos afinidades estéticas e diferenças também, vimos formas diferentes de trocar, de mostrar a troca, de compreender o processo da troca. éramos grupos de teatro de todo país, juntos por uma semana, manhã, tarde e noite, interessados no intercâmbio. mais do que nas cenas, nos processos. mais do que no trabalho apresentado, na forma de trocar experiências, na contaminação. o assunto era a troca.

 

 

não sei. acho que um grupo de teatro já é um projeto de intercâmbio, um intercâmbio diário. escutei lá no rumos que a identidade se dá na relação[1]. a identidade do espanca!, por exemplo, vai se construindo na fricção diária entre nós. ceder, convencer, discutir, abrir mão, rever, bater o pé... todo esse atrito vai construindo um discurso, uma maneira de fazer, de trabalhar, de pensar, que não é sua – nem do outro – é uma terceira voz, um corpo estrangeiro, uma força outra, resultante das relações entre os indivíduos (das relações subjetivas entre eles, inclusive). e aí você se reconhece nesse corpo, se questiona, se problematiza, às vezes briga com ele também. estar em grupo, criar em grupo, pressupõe a interação mas não anula o sujeito. você existe (resiste, insiste) neste estado permanente de interação.

 

 

a semana do rumos terminou com uma palestra da professora cecília Salles (da puc/sp) intitulada ‘processos de criação em rede. interações como espaço de possibilidade’. foi muito legal[2]. cecília falou que onde há intensidade, multiplicidade, confrontos, enfim, onde há troca, há inovação do pensamento, há calor cultural. segundo ela, um grupo de teatro seria a união de sujeitos (e um sujeito em si, já vive processos em rede) que viabilizam produções (objetos, ações) para uma ação comum (o teatro). essa complexa ‘união de sujeitos’ contém as características de qualquer organização humana, qualquer sociedade: a desordem, a aleatoriedade, o conflito (ruína e beleza de qualquer organização humana) e o jogo (a negociação). disse ainda que as pesquisas científicas (a criação dos cientistas, inovação do pensamento humano) têm maior êxito quando os pesquisadores trocam impressões sobre seu experimento fora da solidão do laboratório. segundo eles, relatar os dilemas do trabalho para um companheiro faz com que o trabalho avance, pois a conclusão de um, vira o ‘input’ para o pensamento do outro. o que parecia uma conclusão é o ‘start’ de uma nova hipótese. optar por trabalhar em grupo é optar por ouvir, lançar uma conclusão e vê-la se transformar, naquele mesmo instante, no início de algo. e colaborar na elaboração disso até uma conclusão. que em breve será um novo começo. concluir para recomeçar, incansavelmente.

 

 

agora, um grupo em intercâmbio com outro é uma loucura maior ainda: um coletivo se relacionando com outro gera um terceiro corpo. cada um deles, isoladamente, vivencia todos os complexos processos da organização humana. e até o encontro com o outro, até o contato, a fricção, os coletivos estavam estáveis, haviam encontrado formas de administrar seus conflitos. mas da relação deles nasce um terceiro corpo (que não é espanca! nem XIX; não é espanca! nem brasileira), um terceiro grupo, sem nome. essa força, fruto do encontro, também contém em si, toda desordem, toda negociação, todas as disputas egóicas, vaidades, desencontros, descompassos, todos os tempos diferentes, os desejos às vezes desencontrados, todos os conflitos a que estamos submetidos quando nos disponibilizamos a ‘estar com o outro’. mas os conflitos são a ruína e a beleza de qualquer organização humana, como disse a cecília. esse terceiro grupo – amorfo, sem nome, recém-inventado – além de conter todas as contradições, incongruências, deformidades, caos, frestas, discursos desconexos, dúvidas; contém todo o desejo, reconhecimento, toda confiança, todas as admirações, paixões, saberes, tudo que qualquer grupo de teatro administra, dia após dia.

 

 

no meio de tudo isso, você ainda se reconhece individualmente no grande grupo. e ao mesmo tempo, ainda reconhece a voz do seu grupo original, aquela voz que você não controla nem sabe emitir sozinho. inacreditavelmente, ouço a voz do espanca! independente de mim, ouço o XIX, a brasileira. e como em qualquer processo criativo, você estabelece afetos, ligações, distanciamentos ou aproximações, momentâneos ou duradouros, com pessoas do seu grupo ou do outro (do ‘grupo estranho’ que você passa a conhecer pelas entranhas). o que descobrimos nesses projetos é que numa criação compartilhada entre grupos de teatro, as inter-relações (afetos e desafetos, encontros e desencontros, tempestades e calmarias) se dão em todas as esferas: você e seus companheiros de grupo; você e as pessoas do outro grupo; você e esse novo grupo recém-nascido; sem falar nos seus conflitos internos, você consigo mesmo; além de cada grupo internamente; um grupo e o outro grupo; o terceiro grupo internamente...

 

 

acho que o espanca! se construiu um pouco assim: nas parcerias, nos intercâmbios, nas relações questionadoras, nos conflitos - que são ruínas e belezas de qualquer organização. é difícil enxergar quem é o espanca!, qual a sua estética, sua plástica, sua ética, seus acordos, sua identidade, sem considerar as relações de troca que estabelecemos com cada um dos envolvidos nos nossos processos criativos, além do processo contínuo que é criar e recriar um cotidiano vivido a dois, três, quatro, cinco, dez, doze... a troca como desejo, como objetivo, trocar como finalidade. a troca em si. a troca como linguagem.

 

 

...

 

 

visite:

espanca! www.espanca.com

grupo XIX de teatro: www.grupoxix.com.br/

companhia brasileira de teatro: www.companhiabrasileira.art.br/

troca de pacotes: www.espanca.com/ciabrasileira/

blogs do rumos teatro: www.migre.me/5Xf9U

 


[1]baseado no conceito de alteridade, que revolucionou a política cultural brasileira nos governos de lula.

[2]o parágrafo a seguir foi escrito com base em minhas anotações a partir da fala da professora.

Ator licenciado em teatro pela Escola de Belas Artes da UFMG; Integrante do Grupo Espanca! (BH); e membro do Coletivo Paisagens Poéticas.
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